Fé, pão e vinho: os motivos que fizeram cidade da Serra Gaúcha ser escolhida para representar o Brasil na ONU
Vila Flores é escolhida para representar o Brasil em seleção da ONU de vilas turísticas O cidade de Vila Flores, na Serra Gaúcha, foi escolhida para representar...
Vila Flores é escolhida para representar o Brasil em seleção da ONU de vilas turísticas
O cidade de Vila Flores, na Serra Gaúcha, foi escolhida para representar o Brasil em uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). A seleção reconhece vilas e pequenas cidades que se destacam por conciliar turismo, identidade cultural, inclusão social e sustentabilidade.
Com pouco mais de 3,6 mil moradores, a cidade está localizada entre Veranópolis e Nova Prata. O interior do município reúne capelas centenárias, construções históricas e tradições italianas mantidas vivas pela população local.
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A rotina de Vila Flores contrasta com o ritmo acelerado dos grandes centros. A cultura da cidade é marcada pela fé herdada entre gerações, pela produção de vinho conforme tradições antigas e pelo pão assado diariamente em um casarão centenário.
O espírito comunitário do município transforma os visitantes em convidados para celebrações coletivas. A artista Benedita Zandoná Ceccato destaca as características do modo de vida local.
"A tranquilidade, o próprio ar, as pessoas. Todo mundo se conhece. É um bom-dia, uma boa-tarde, como vai?", resume.
Igreja com mais de 130 anos de história
Vila Flores, na Serra do RS
Reprodução/ RBS TV
No interior do município, uma das marcas da religiosidade dos moradores é a Capela São Jorge. Erguida há 131 anos por imigrantes, a construção nasceu de uma promessa feita em meio às dificuldades enfrentadas pelos primeiros moradores da região, que sofreram com vendavais e uma infestação de gafanhotos. Feita de pedra e barro, a capela segue preservada e se tornou um dos símbolos da comunidade.
A poucos quilômetros dali, outra história ajuda a ilustrar a importância da espiritualidade para os moradores. Aos 81 anos, Glória Zancanaro mantém o hábito diário de rezar no Santuário Divino Pai Eterno. Mais do que frequentadora, ela foi a idealizadora do espaço e também responsável por viabilizar sua construção.
Segundo Glória, a fé faz parte da sua trajetória desde a infância.
"A fé ainda está viva em Vila Flores e esperamos que mais gente se una para a gente ter a paz no mundo."
A herança italiana celebrada à mesa
Se a fé ajuda a construir a identidade da cidade, a cultura dos imigrantes italianos também ocupa um papel central. Um dos exemplos mais visíveis disso acontece nos tradicionais filós, encontros comunitários que reúnem moradores e turistas para compartilhar histórias, música, comida e costumes transmitidos ao longo das gerações.
Ao cair da noite, lampiões iluminam o ambiente e ajudam a recriar o cenário que fazia parte do cotidiano dos primeiros colonizadores. A recepção é calorosa, a mesa é farta e a polenta ocupa lugar de destaque.
Tradição de polenta em Vila Flores, na Serra do RS
Reprodução/ RBS TV
Nos filós, a gastronomia é apenas parte da experiência. Entre canções, brincadeiras e apresentações culturais, os visitantes conhecem um pouco da trajetória das famílias que ajudaram a construir a região.
O passeio passa pelo artesanato, relembra atividades que marcaram o trabalho dos antepassados e abre espaço para momentos de descontração, como a brincadeira do "chinelo de três", que costuma arrancar risadas dos participantes.
A espontaneidade das apresentações é um dos aspectos que mais orgulham os moradores. Para Benedita Zandoná Ceccato, não existe encenação:
"Nós não precisamos ensaiar alguma coisa porque é um sistema de vida nosso. Tu pode ver o grupo ali, espontâneo, alegre. É assim que nós somos".
Legado do vinho é mantido
Tradição do vinho em Vila Flores, na Serra do RS
Reprodução/ RBS TV
Outro legado mantido ao longo de mais de um século está ligado à produção de vinho.
A atividade é conduzida por freis capuchinhos e reúne visitantes interessados em conhecer um processo que combina religiosidade, história e enoturismo.
Entre os elementos que despertam curiosidade está o canto gregoriano utilizado nos ambientes de maturação das bebidas.
"Segundo o nosso enólogo, se o canto gregoriano faz bem para nós, faz muito bem para o vinho também", brinca o frei José Lagni.
Além da produção, a relação da bebida com a tradição religiosa chama a atenção dos visitantes.
"Os freis produzindo vinho criam toda uma curiosidade para conhecer, experimentar e entender essa história."
O enólogo Djair Galvan explica que a atividade tem origem na chegada dos freis capuchinhos provenientes do sul da França, em 1896.
Segundo ele, a tradição foi sendo incorporada pelas famílias da região até se tornar parte importante da cultura local.
"São mais de 100 anos dessa tradição", comenta Galvan.
Com o passar do tempo, a atividade se profissionalizou, mas sem perder a conexão com as origens.
O que chamou a atenção da ONU
Moradores de Vila Flores, na Serra do RS
Reprodução/ RBS TV
De acordo com Beatriz Paulus, diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste, o destaque está na capacidade de o município preservar a própria identidade ao mesmo tempo em que desenvolve o turismo de forma sustentável.
"Não é porque Vila Flores é uma cidade bonita. Ela reúne muitas características que correspondem aos objetivos de desenvolvimento sustentável da própria ONU", aponta.
Segundo ela, um dos principais diferenciais está justamente na preservação autêntica da cultura local.
"Conseguimos manter a cultura de uma forma extremamente original", diz Paulus.
Para isso, explica, foi necessário um trabalho contínuo ao longo dos anos, baseado em planejamento e na manutenção de projetos para além das mudanças de gestão.
A cidade busca agora um reconhecimento internacional semelhante ao obtido por Antônio Prado no ano passado.
"Sempre ressalto que o Rio Grande do Sul precisa dessa notoriedade. Precisamos potencializar aquilo que o turismo tem de distinto em todo o Brasil", comenta a diretora.
Vila Flores, na Serra do RS
Reprodução/ RBS TV
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